“Coração Partido”: filme adolescente russo prova que os clichês do gênero não têm nacionalidade

📅 Publicado: 2026-08-19T17:26:11.811Z ✍️ Autor: Adriano Hoffmann
“Coração Partido”: filme adolescente russo prova que os clichês do gênero não têm nacionalidade

O que acontece quando um filme adolescente russo decide contar uma história que poderia perfeitamente ter saído de Hollywood? A resposta está em “Coração Partido”, romance baseado no livro Your Heart Will Be Broken, de Anna Jane, que chega aos cinemas brasileiros distribuído pela Paris Filmes.

Estrelado por Veronika Zhuravleva e Daniel Vegas, o longa acompanha Polina, uma nova aluna do ensino médio que se muda para outra cidade e acaba descobrindo que seu vizinho, Bars, é também seu colega de classe. Ele é o típico bad boy da escola, enquanto ela ocupa o lugar da garota inocente e deslocada.

A premissa é conhecida. E muito.

Quando Polina passa a sofrer bullying, Bars decide protegê-la de uma maneira bastante peculiar: anuncia diante de todos que os dois são namorados. O relacionamento, inicialmente falso, começa então a ganhar contornos reais à medida que os dois descobrem sentimentos um pelo outro.

É o velho enemies to lovers, misturado ao trope do namoro de mentira, com direito a garoto problemático, garota aparentemente ingênua, rivalidades escolares, ciúmes e muita tensão romântica.

A grande diferença é que, desta vez, tudo isso vem da Rússia.

Os clichês adolescentes são universais

Talvez uma das coisas mais interessantes de “Coração Partido” seja justamente perceber como ele poderia ser ambientado em praticamente qualquer lugar do mundo.

Troque a escola russa por uma escola americana, brasileira ou de qualquer outro país e a estrutura continuaria funcionando. O filme mostra que os dramas da adolescência, os conflitos amorosos e principalmente os clichês dos romances juvenis são surpreendentemente universais.

Bars é o arquétipo do garoto que parece inacessível e perigoso, mas guarda um lado sensível. Polina é a jovem que chega a um ambiente novo e precisa encontrar seu espaço. A relação entre os dois começa na base do conflito e vai se transformando gradualmente em algo mais genuíno.

Não há exatamente uma preocupação em reinventar o gênero. E talvez nem seja essa a intenção.

Previsível, mas difícil de abandonar

“Coração Partido” é um filme bastante previsível. Quem conhece minimamente esse tipo de produção provavelmente conseguirá antecipar boa parte dos acontecimentos.

Ainda assim, isso não impede que o longa cumpra sua principal função: prender a atenção até o final.

Mesmo sabendo para onde a história está caminhando, existe uma curiosidade genuína em descobrir como os acontecimentos vão se desenrolar. O roteiro ainda guarda alguns bons plots para a reta final, capazes de movimentar a trama quando ela começa a parecer excessivamente previsível.

É uma característica comum dos romances adolescentes: muitas vezes, o prazer não está em descobrir o que vai acontecer, mas em acompanhar como os personagens chegarão até lá.

E nesse aspecto, o filme funciona.

Um romance fofinho em meio a temas mais pesados

Apesar da embalagem de romance adolescente, “Coração Partido” apresenta situações consideravelmente mais pesadas do que sua proposta inicial pode sugerir.

O bullying sofrido por Polina é recorrente e, em determinados momentos, bastante agressivo. O filme também aborda diferentes formas de violência contra mulheres e situações de abuso e intimidação.

Esses elementos poderiam render discussões muito mais profundas, mas acabam dividindo espaço com o romance central e outras subtramas. Por isso, algumas questões importantes parecem menos desenvolvidas do que poderiam.

O próprio arco de Polina poderia ganhar mais força diante das situações que enfrenta. Em alguns momentos, a resolução dos conflitos depende mais de acontecimentos externos do que de uma transformação provocada pelas próprias escolhas da protagonista.

Isso acaba diminuindo um pouco a força de uma personagem que passa boa parte da história enfrentando situações bastante difíceis.

Duas horas de romance adolescente

Outro ponto que chama atenção é a duração. “Coração Partido” tem cerca de 2 horas e 15 minutos, um tempo bastante extenso para uma história de romance adolescente.

Há momentos em que a duração pesa, especialmente nas sequências relacionadas ao bullying, que podem transmitir uma sensação de repetição.

Por outro lado, o filme consegue manter uma certa fluidez justamente por apostar constantemente na evolução do relacionamento entre Polina e Bars. O interesse pelo casal funciona como uma espécie de motor narrativo que mantém a história em movimento.

E existe um certo prazer culpado em acompanhar os dois protagonistas alternando entre provocações, conflitos, aproximações e momentos românticos.

A fórmula é velha. Mas continua funcionando.

Um filme russo com alma de romance adolescente global

“Coração Partido” talvez seja mais interessante justamente quando não tenta esconder seus clichês.

É um filme adolescente russo que utiliza praticamente todos os ingredientes conhecidos do gênero e mostra que eles não pertencem a uma determinada cultura cinematográfica. O bad boy, a mocinha, o namoro falso, o bullying, os rivais e o romance improvável poderiam estar em qualquer lugar.

Não é um filme que pretende revolucionar o romance adolescente. Também não precisa ser.

Ele entrega aquilo que promete: um romance jovem, previsível, dramático e fofinho, com personagens fáceis de identificar e uma história construída para provocar torcida pelo casal.

Mesmo com problemas de ritmo, duração excessiva e algumas subtramas que poderiam ser mais bem trabalhadas, o longa consegue manter o espectador interessado até o fim e ainda reserva algumas surpresas para seus momentos finais.

No fim, “Coração Partido” funciona como uma espécie de lembrete cinematográfico de que, independentemente do país, adolescente continua sendo adolescente. E aparentemente o cinema adolescente também.